
Publicaremos aqui uma série de contos, decorrentes duma mesma narrativa intitulada A Cidade Era A Noite. Os episódios não sõ sequenciais, não há linearidade nas postagens. Deixo aqui o primeiro conto dessa narrativa.
O Espelho
Author: Hélio /Refletem, nuas, tudo o que eu desejo.
“É só o começo!” brada, qual clarim
Aquele espelho, e tudo o que me lembro
É que o desejo, transcendendo o tempo,
Era uma luz que despertava em mim.
E tudo que eu desejo é refletido
Naqueles olhos de prateado brilho,
Naqueles lábios tão especulares.
E que tudo que eu escuto é o que ele exclama,
(O espelho). E o corpo nu que em frente a cama
Desvenda as metafísicas verdades.
“É só o começo!” brada, pois, a mim
E a tal imagem, que sorrira, em fim
É o nada que eu me lembro, é o próprio tempo.
Em seu olhar de brilho prateadíssimo...
Naquele lábios via-me tão mínimo.
É só um espelho! Vendo-o, pois, trasncendo.
Aquilo foi meu novo nascimento
E nos reflexos inda me amamento.
Ainda há corpo nus, que frente o espelho
Refletem tudo e eu sou refletido.
Mas os lábios e olhos de mor brilho -
Só aqueles refletiram tudo o que eu desejo.
Nhagaclulu
Author: Hélio / Marcadores: Nada
“Nhangaclulu, demônio dos cerrados,
A teratogenia de tentáculos.
Ser cefalópode e tupinambá
Caído das estrelas negras, mortas,
Na primitiva, tétrica e ciclópica
Província dos ipês e infértil ar.
Deus invertebrado espacial
Sonhando no Sertão vertiginal.
Polvo hibernando em plasma de enzimático
Viscoso rio sob pés de pequi
– O límpido Aqüífero Guarani,
Vital para esse ser molusco flácido.
Nhangaclulu já foi onipotente.
Agora, nas crateras estridentes
Anseia a volta de seu Cosmos Gil
– Fotões da Via Láctea, seu senhor,
Que na dobra espacial lhe desandou
Quedado nos sertões do vão Brasil.
Espacial diabo invertebrado
Nadando no Araguaia, solitário.
Maior senhor dos povos primitivos
Que cá habitavam, gente macrojê.
“Mas ele ainda vai nos renascer”
A liturgia brada, dos antigos.
Nhangaclulu, Leviatã da terra
Deforma, triste, toda a densa selva
Que queda, pois, tal qual portal deserto.
Vai longe a sua estrela demoníaca
- Lá moram criaturas esquisitas
Que um dia já reinaram neste Império.
Espalham-se os seus braços sob Goiás
E sua natureza vai voraz,
Faminta, tão sedenta de vingança.
Por que eles foram lhe tirar o mar?
O polvo, agora, quer abocanhar
Os homens que lhe apagam da lembrança”
Bradou Nhangaclulu para o ancião
Que me narrou tal saga, no Sertão.
Remoto vou, guiando-me Omulu
E assim me segue - sempre - na memória
Deste Cerrado a verdadeira história.
Do monstro de Goiás: Nhangaclulu!
Há uma alucinação que me apavora.
Eu chovo e sonho e quando vem a aurora
Um pranto alucinógeno me chama.
É a estrela d'alva, nua sobre a cama
- Desnuda de atmosfera me devora.
Dissipo sua vida. Sua forma
Me queima num olhar de ácida chama.
Nesta ilusão eu marcho, sem destino,
Pois aquele orbe segue-me, insistindo
Que de seu mar não brota só veneno.
Eu sei que pode parecer loucura,
Mas lá contemplo a escuridão futura
Que nos fará qual fez-se sobre Vênus.
Ser Proletário
Author: Hélio / Marcadores: NadaMulher Desprestigiada
Author: Hélio / Marcadores: NadaÓ, mulher desprestigiada
A Razão do Mascarado
Author: Hélio / Marcadores: Nada
O rosto, maltratado pelo tempo,
- A máscara mortuária do passado -
Sem dentes, boquiaberto, em fusco espasmo,
Exclama, em nomes mortos, contra o vento.
Cadáver insepulto que, sofrendo,
Recorda os idos dias de soldado.
Guerreiro velho franj desprestigiado
Tão olvidado, feito de excremento.
Desperto, ó, besta bárbaro, da tumba.
No qual te faz um vácuo, repentino
O insólito siroco, a voraz glória.
Dormente entre os teus ossos, de profunda
E artroz futilidade. Teu destino,
Escrito em bocas vãs, te grita: Ebola.
O Pastor a Suas Terras
Author: Hélio / Marcadores: Nada
Fecunda imensidão as destas duas
Montanhas que sustentas junto a ti.
Que imenso parvo eu fui, pois nunca cri
Haverem tão imensas como as tuas.
Nesta alta escadaria, rumo as Luas
Eu hei de, extasiadíssimo, subir.
Na tua profundeza, que hei de me ir
Anseando os dias em que me possuas.
Cerrado, agora, nesta tão profunda
Caverna, sob a sobra de teus montes
Me encerro, em tua curvas, embriagado.
Me vira os olhos tua mui fecunda
Imensidão obscura, gruta aonde
Te chove, de desejo, meu cajado.
O Verme Primata
Author: Hélio / Marcadores: NadaSe vai à D’Alva, aquela estrela impura.
Governa de meu corpo o lixo humano,
Análoga a lemberança
Da hemácea infravermelha
Da morte e da agonia
De meus cancróides dias
À sombra das caveiras.
Pelo éter redemoinhos
Transmutam meus caminhos,
Me lançam às sarjetas
De artroz buraco-negro.
Confundem-me os desejos
E cegam-me as estrelas.
São mundos moribundos
De Deuses e defuntos.
Vernáculos sulfúricos
Tomados em matéria
Por vozes cadavéricas
Num infernal murmuro.
É tudo que me resta doutros dias:
Um filho deste mundo, que cá havia
Bem antes de eu nascer, num tempo negro.
Ele é o Nefasto em meu pagão desejo
E há de apagar-me, tal qual se fazia
Naquele tempo ao qual sua alegria
Pulsava de tão imensurável medo.
Agora, o que há de podre ele devora
E me atormenta, ao pé da madrugada.
Ferido, eu vou curar-me em seu altar
E juntos renascemos toda aurora.
Pois tal demônio é meio-irmão de raça
E dá-me, em sonho, a sede de matar.
Versos a uma Mulher
Author: Hélio / Marcadores: NadaO teu corpo - ó, que pampa mais lascivo!
Minha Vênus
Author: Hélio / Marcadores: NadaO sentido do amor, nesta saudade
- do mais parvo entre os parvos, do covarde -
É lágrima que soa qual clarim
Me convocando para essa dor sem fim.
Te busco, mas eu sei: não hei de achar-te.
Por que te abandonei, ó, minha Astarte?
Por que fui me exilar de teus jardins?
O vento em que flutuam teus cabelos
Levou-me e embriagou-me nos teus beijos
E renasci na luz de teu olhar.
É tanta, me cegou a luz de ti
E em teu perdido olhar eu me perdi.
Minha Vênus! Por que fui te deixar?
O amor devasso, a lascívia, em nosso olho
Faz novamente o seu perfeito corpo.
Reflete em tal beleza todo o cosmos.
Tem os contornos mais do que sinuosos
E em seus cabelos, doiros, se faz o ouro.
Repousa, de tez bege, no flexuoso
Contorno que há dentre as tristezas e ódios.
Perséfone! De filha da loucura
A epíteto ilusório dos infernos.
Outono, Inverno... a Morta Primavera
No Tártaro, tão louca, se revela
Desnuda, vislumbrando seu Império.
No fogo queima aquele A procura.